
Caricatura Annaïs Nin – Dayane Gomes / Biblioteca Universitária UFMG
Obsceno é sinônimo do que deve ficar na escuridão dos bastidores. No século III, o “Kama Sutra”, por exemplo, foi considerado obsceno por explicitar textos eróticos que, na época, deveriam permanecer fora de cena.
Fato é que, ao longo da história da literatura, obras-primas foram censuradas pelo conteúdo erótico, em nome da “moral e dos bons costumes”. “A censura se relaciona com a moral do seu momento histórico, sendo, portanto, cambiável ao efeito obsceno que o status da arte proporciona”, afirma Rodrigo Gerace, doutor pela Escola de Belas Artes da UFMG, no livro “Cinema explícito – Representações cinematográficas do sexo”.
O contista Marquês de Sade foi censurado séculos após sua morte. Entre os contos do libertino, destacam-se “Os 120 dias de Sodoma” e “O corno de si mesmo”.
A moral, no entanto, é seletiva. Alguns textos sobre temas problemáticos, como incesto e pedofilia, não foram censurados. “Anti-Justine”, de Bretonne, “O Novo Epicuro”, de Sellon, “Autobiografia de uma pulga”, de Rhodes, “Lolita” e “Ada ou ardor”, ambas de Nabokov, são algumas das obras mais polêmicas. O inglês Charles Swinburne, por exemplo, publicou anonimamente “Flossie, a Vênus de Quinze Anos”, em 1897, para escapar da censura. Segundo a sinopse, o clássico conta a história “de amor e desejo” entre um capitão e a jovem Flossie, de apenas 15 anos. Nessas obras e “na indústria do livro, a mulher não escapa de ser representada sob um olhar machista”, escreve o pesquisador Johnny Martins, da Universidade Federal da Paraíba, no artigo “Escrita Erótica”, publicado em 2015, na revista Continente.
Muito além de cinquenta tons
Críticas ao best-seller “Cinquenta Tons de Cinza”, da autora Erika Leonard James, apontam que o livro naturaliza abusos e preconceitos contra a mulher. Mas há autoras que abordam o tema de maneira distinta.
Anäis Nin, por exemplo, versa sobre o sexo não só nos aspectos físicos, mas também psicológicos. Nas palavras da autora, “o erotismo é uma das bases do autoconhecimento, tão indispensável quanto a poesia”.
A exploração de temas considerados polêmicos fez com que Anäis Nin fosse tabu por décadas. “Pequenos pássaros” e “Delta de Vênus” são obras da escritora que, mais do que contos eróticos, são histórias de libertação e superação.
Outra escritora de destaque é a brasileira Hilda Hilst, cuja trilogia erótica – “O caderno rosa de Lori Lamby”, “Contos d’escárnio: textos grotescos” e “Diário de um sedutor” – é uma distinção em sua produção literária. A autora foi excluída do mercado editorial por décadas, tornando-se uma escritora “maldita” por colocar em prática “procedimentos de transgressão e profanação em sua obra”. É o que mostra a pesquisadora Fernanda Shcolnik, da Uerj, no artigo “Hilda Hilst: escritora maldita?”, publicado em 2014, na revista Estação Literária.
Ainda no Brasil, alguns escritores também se aventuraram na escrita erótica, como Nelson Rodrigues, em “Engraçadinha”, e João Ubaldo Ribeiro, com “A Casa dos Budas Ditosos”. Escrito no feminino, este livro é a narração em primeira pessoa de uma baiana de 68 anos, que “jamais se furtou a viver – com todo o prazer e sem respingos de culpa – as infinitas possibilidades do sexo”. A história por trás da obra é ainda mais interessante. O autor relata que recebeu em casa um misterioso pacote, com a transcrição datilografada de várias fitas, gravadas por uma mulher anônima. Seria um relato verídico ou não passa de ficção? Fica a dúvida e o convite para se deleitar com a leitura dessa e de outras obras da literatura erótica disponíveis nas bibliotecas da UFMG.
(Alex Vilaça)

