Reflexões sobre o passado de discriminação ainda presente na sociedade
“Passageiro do fim do dia” retrata a viagem de ônibus coletivo de Pedro, protagonista da estória, numa sexta-feira após o trabalho, em direção à casa de sua namorada Rosane, moradora de um bairro periférico chamado Tirol, bem distante do centro da cidade. É essa viagem de aproximadamente duas horas e meia que serve de fio condutor para a tessitura das reflexões que Pedro, enquanto espera o ônibus chegar ao seu destino, realiza ao folhear as páginas de um livro que versava sobre Charles Darwin, o naturalista inglês.
O leitor saberá que Pedro tentara ganhar a vida como livreiro, sócio de uma banqueta de volumes usados na rua. Em uma confusão na cidade, ele é atropelado por um cavalo da polícia e tem como prejuízo um tornozelo esmagado e seu material de trabalho destruído.
É interessante notar a similaridade do comportamento de sobrevivência de Pedro, que se faz de bobo para prosseguir naquele mundo, com uma das passagens registradas por Darwin no livro que é lido durante a viagem de ônibus, especificamente quando “os olhos atentos do sábio inglês” percebem o recuo de certo escravo, ao notar que seria esbofeteado pelo seu senhor, durante a travessia de barco em um rio: “Na certa, tomou a posição em que as pancadas doeriam menos – ele conhecia esses expedientes, era uma lição segura, aprendida bem cedo na vida: se não havia como escapar do chicote, sempre havia um jeito de uma chicotada doer um pouco menos”.
Ombreado a Pedro, o leitor é direcionado ao núcleo duro do real e talvez se veja a pensar sobre um mundo no qual a discriminação sempre existiu e ainda existe, mas do qual não havia ainda se distanciado o bastante para refletir sobre ele.
(Wellington Marçal de Carvalho – diretor da Biblioteca Universitária da UFMG)

