
Carla Pedrosa / Biblioteca Universitária UFMG
Incidente em ANTARES
Erico Verissimo
Sexta-feira, 13 de dezembro de 1963. Devido a uma greve, há dois dias os serviços de energia, transporte e telefonia estão interrompidos em Antares, município à margem do Rio Uruguai, na fronteira do Brasil com a Argentina. Alheios às ordens do coronel Tibério, patriarca dos Vacariano, os coveiros da cidade aderem à paralisação e impedem o sepultamento de sete cadáveres, entre os quais o de dona Quitéria, matriarca dos Campolargo.
Livres de represálias, os sete insepultos – d. Quitéria, Cícero Branco, João Paz, Barcelona, Erotildes, Pudim de Cachaça e Menandro Olinda – deixam os caixões e passam a vasculhar a intimidade dos vivos. Para espanto e desespero da sociedade antariana, os sete defuntos espalham não apenas mau cheiro, mas também denúncias de fraudes, roubos e traições. O resultado é tão trágico quanto cômico: a podridão dos vivos é desvelada por mortos em podridão. No duelo entre os vivos e os mortos de Antares, quem ganha é o leitor, que pode apreciar nesse romance uma sucessão de acontecimentos reais e irreais em tom de sátira.
De conotação claramente política, o último romance de Erico Verissimo apresenta um panorama sociopolítico do Rio Grande do Sul e do Brasil de meados do século XIX até final dos anos 1960. Nesse sentido, a fictícia Antares pode ser lida como uma espécie de microcosmo das sociedades gaúcha e brasileira.
Diogo Tadeu Silveira
Professor de Francês e estudante de Direito na UFMG

