
Dayane Gomes / Biblioteca Universitária UFMG
A literatura dos excluídos ainda é uma pele de Boto que foi destruída ao longo dos séculos e que está esquecida e abandonada no fundo dos rios a precisar renascer_ ardentemente_ com a força da alma da natureza e humana. Esse Boto Literário em botão, na atualidade, precisa ser salpicado com as lágrimas emocionadas da Natureza, muitas desvairadas lágrimas. Aí sim, essas feridas do mundo_ que as mulheres indígenas as eternizaram com seus beijos de cura, bálsamos históricos, histórias não contadas e adormecidas no fundo do rio ou dos oceanos, essas sim, _ serão eternamente curadas. (Eliane Potiguara)
Cura: nisso também aposta o escritor Daniel Munduruku. Para ele, a literatura indígena vem como um maracá para o Brasil. Se dentro dos maracás ecoam vozes sagradas que se comunicam com os pajés e ajudam a curar os doentes, na literatura são as vozes dos escritores indígenas que circulam, a tratar do país.
Há pouco mais de 20 anos atrás, Munduruku publicava seu primeiro livro, “Histórias de Índio”. O autor percebe a obra como um divisor de águas, em um momento que as editoras passaram a se abrir para as histórias indígenas. “De lá para cá houve o crescimento da produção literária, o surgimento de autores e ilustradores indígenas, a participação em eventos literários, maior interesse do mercado editorial em obras de indígenas e o aumento do debate sobre essa literatura pelas universidades brasileiras”, explica Daniel em entrevista para o Blog Página Cinco.
Desde o primeiro livro de autoria indígena publicado em 1980, “Antes o Mundo não Existia”, de Umúsin Panlõn e Tolamãn Kenhíri, as licenciaturas indígenas apoiaram o crescimento dessa produção editorial, sobretudo na década de 90. Maria Inês de Almeida, que trabalhou como pesquisadora na Faculdade de Letras da UFMG, foi uma professora que viu de perto essa mudança. “Quando a gente começou, a palavra interculturalidade nem era usada na universidade. O ensino brasileiro foi se abrindo e começou a reconhecer as tradições orais, a lidar com a literatura e autores vivos, suas matrizes não ocidentais e o texto na sua complexidade… E isso é um ganho científico importante”.
Com a Lei 11.645 – promulgada em 2008 – criando a obrigatoriedade do estudo das temáticas indígenas e afro-brasileiras nas escolas, essa produção recebeu incentivo. Na época, Maria Inês participava da expansão do núcleo de pesquisa Literaterras, que também ampliava a presença indígena na UFMG. Através de um projeto que terminou no início de 2014, o grupo chegou a publicar cerca de 130 títulos de autoria de diferentes povos nativos, distribuídos entre escolas indígenas e em acervo especial na Biblioteca Central e na Letras. Para a pesquisadora, essa literatura é também uma experiência tradutória, “não apenas de uma língua para a outra, mas a transposição de um espaço para outro; a transcriação de cenários, de imagens, de cultura… A literatura brasileira não se limita à língua portuguesa, ela é plurilíngue”.
As línguas nativas e tradições orais são aspectos que não podem ser esquecidos no registro desses povos, que não escrevem apenas para educar a sociedade não-indígena, mas também preservar e valorizar sua própria cultura. Para Eliane Potiguara, escritora e ativista indígena, a literatura cumpre o papel de resgate, preservação cultural e fortalecimento das cosmovisões étnicas: “O escritor indígena é o futuro antropólogo, aquele que vê, enxerga e registra. Povos indígenas devem caminhar com seus próprios pés”.

Dayane Gomes / Biblioteca Universitária UFMG
Confira em nosso acervo:
“O coco que guardava a noite” e “Metade cara, metade máscara”, Eliane Potiguara
“A queda do céu: palavras de um xamã Yanomami”, Davi Kopenawa e Bruce Albert
“Ãgohó Lua Pataxó”, Lucidalva Pataxó
“Terra dos mil povos: história indígena brasileira contada por um índio”, Kaka Werá Jecupé
(Lívia Araújo)

