Jean-Paul Sartre defendia que a tarefa da literatura e dos escritores seria, por meio da palavra, se engajar no mundo. E esse engajamento teria como premissa um posicionamento perante as questões trazidas à tona por meio da linguagem. Eduardo de Assis Duarte, coordenador do Literafro, explica que, de fato, “toda palavra está marcada por sentidos políticos implícitos ou explícitos, a favor ou contra o status quo. Em geral, o texto explicitamente engajado põe em relevo as injustiças sociais, a exploração do trabalho e as discriminações de toda natureza”.
O Literafro – portal da literatura afrobrasileira é fruto do trabalho do grupo de pesquisa “Afrodescendências na Literatura Brasileira”, constituído em 2001 e sediado no Núcleo de Estudos Interdisciplinares da Alteridade – NEIA, da Faculdade
de Letras da UFMG. Para saber mais, acesse: www.letras.ufmg.br/literafro
Em termos de iniciativas que vão de encontro à realidade dominante, no circuito literário brasileiro há várias frentes de resistência, como a literatura negra ou afro-brasileira. Dentro dessa perspectiva, escritores como Conceição Evaristo e Carolina Maria de Jesus se destacam na denúncia do preconceito racial no Brasil. Há também escritoras voltadas para a construção do protagonismo feminino e para a denúncia da opressão de gênero, como Lygia Fagundes Telles, Djamila Ribeiro e Marina Colasanti. E, ainda, produções que questionam o circuito literário estabelecido e trazem falas e vozes de sujeitos silenciados, além de abordarem questões como a busca pelo reconhecimento da homoafetividade.
No dia 18 de junho deste ano, Conceição Evaristo confirmou sua candidatura à Academia Brasileira de Letras (ABL). Uma petição on-line foi criada em apoio à eleição da autora e já contava, na época da candidatura, com mais de 20 mil assinaturas. Aos 71 anos, a escritora mineira pode ser a primeira mulhernegra a ocupar uma cadeira na ABL.
Os temas abordados pelas frentes de resistência não são retratados, necessariamente, de forma isolada e, por vezes, estão imbricados nas obras. Djamila Ribeiro, ativista e mestre em filosofia política, por exemplo, questiona, no livro “O que é Lugar de Fala”, quem tem direito à voz numa sociedade que tem como norma a branquitude, masculinidade e heterossexualidade.
“Existe uma hierarquia forte na sociedade. Nem todos os grupos têm os mesmos acessos à fala e existência em determinados espaços, sobretudo nos espaços de poder. É importante falar sobre esse assunto para desnaturalizar isso, para as pessoas entenderem que esses privilégios foram construídos à base de opressões de outros grupos e que não são algo natural, um direito divino”, afirmou Djamila em entrevista ao programa Expresso 104,5, da Rádio UFMG Educativa.
A literatura constitui importante lugar de fala e meio para empoderar outras vozes e romper com o discurso hegemônico sobre o mundo. No entanto, ainda é um espaço para poucos. “Dominar essa ferramenta (a escrita) é um ato revolucionário por si só, por isso há todo um esforço para que determinadas pessoas – pobres, negras, periféricas, mulheres – não escrevam e, se escreverem, não sejam lidas e, se forem lidas, não sejam reconhecidas como escritoras”, explica a pesquisadora Regina Dalcastagné, da Universidade de Brasília. Na UFMG, ela abordou o tema na palestra “Por que eles querem nos calar: sobre golpe, pesquisa e literatura”, ministrada na Faculdade de Letras em abril deste ano.
Regina enfatiza que, além das iniciativas dos coletivos de escritoras, escritores e de pequenas editoras para manter abertos os espaços de publicação, é necessário que os professores e críticos literários, juntos com seus estudantes e orientandos, também estabeleçam frentes de resistência “ao próprio conceito de literatura, ao enquadramento que damos ao literário, ao que aprendemos ser o bom, o belo, o correto, o legítimo, à nossa tendência de excluir tudo aquilo que escapa desses contornos pré-estabelecidos”, pontua. Além disso, Regina enfatiza que é preciso ampliar o acesso à diversidade literária e isso só é possível por meio de uma educação de qualidade desde os primeiros anos de ensino, dando-se o devido valor a todas as áreas do conhecimento, sobretudo à História, Antropologia, Sociologia e Filosofia, que oferecem um arcabouço fundamental para essas reflexões.
Eduardo de Assis também reforça que a literatura será, de fato, uma ferramenta de ação que inspira movimentos de massas e lutas por avanços na sociedade, se caminhar lado a lado com investimentos em educação para despertar, sobretudo, os jovens anestesiados pelas grandes mídias. “As novas gerações preferem telas e telinhas ao prazer de ter o livro nas mãos. Não podemos nos iludir a esse respeito. O que vai libertar as massas da ignorância política e da hegemonia midiática que a fomenta é a educação. Enquanto não tivermos uma educação que propicie acesso consistente à informação e à constituição de uma consciência crítica, nada feito. Continuaremos votando em demagogos que exploram a falta de senso crítico de boa parte do eleitorado”.
Dito em outras palavras, se, como alertava Sartre, os escritores devem se engajar no mundo por meio da palavra, que a sociedade como um todo possa acessá-la, por meio da educação. Só assim terá a possibilidade de tomar posse do seu lugar de fala e, a partir dele, resistir e lutar contra todo e qualquer meio de opressão.
Inspiração para engajar-se no mundo
Vozes-mulheres
(Conceição Evaristo)
A voz de minha bisavó ecoou
criança
nos porões do navio.
Ecoou lamentos
De uma infância perdida.
A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.
A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
No fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado rumo à favela.
A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
e fome.
A voz de minha filha
recorre a todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.
A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem – o hoje – o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
o eco da vida-liberdade.
Mais dicas de leitura
- Ponciá Vicêncio (Conceição Evaristo)
- Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica (Eduardo de Assis e Maria Nazareth)
- Quarto de despejo (Carolina Maria de Jesus)
- O que é Lugar de Fala (Djamila Ribeiro)
(Carla Pedrosa)

