
Universidade Católica de Salta
Mestre em Bibliotecologia Social pela Universidade de Buenos Aires, o professor Julio Díaz Jatuf falou sobre o papel dos bibliotecários na defesa da democracia e dos direitos humanos.
(CARLA PEDROSA) – A Bibliotecologia Social é uma disciplina sobre as práticas informacionais que levam em conta a realidade social, histórica e política do seu entorno. Qual é o papel dos profissionais das bibliotecas nesse contexto?
(JULIO DÍAZ JATUF) – A Bibliotecologia Social é a visão que o profissional da informação deve ter, no local onde se encontra, a partir de seu ativismo em favor das comunidades vulneráveis. Estabelecer um lugar de intervenção nas bibliotecas universitárias passa pela seguinte reflexão: qual é a comunidade vulnerável em minha universidade, em termos de necessidades informacionais? Por exemplo, na Biblioteca da Faculdade de Odontologia onde eu trabalho, percebemos a necessidade de produzir materiais informativos para a comunidade que recebe assistência dentária. E essa é a forma de transformar a realidade social: identificar a comunidade vulnerável, suas necessidades informacionais e planejar serviços para solucioná-las.
(CARLA) – A Agenda 2030 da ONU propõe justamente pensar ações orientadas para o desenvolvimento sustentável na saúde, educação e meio-ambiente. Diante dos escassos recursos financeiros nas universidades, quais ações podem ser promovidas?
(JULIO) – Mesmo com poucos recursos, podemos realizar algumas ações. O profissional que faz políticas em defesa de nossos interesses em um grêmio está fazendo Agenda 2030. Aquele que acompanha povos indígenas em defesa de seus territórios, da preservação de sua língua e cultura, também está fazendo Agenda 2030. O Brasil é um país grande e rico culturalmente. São os bibliotecários que têm que ir à luta para preservar a memória e garantir o acesso à informação. E esse acesso deve beneficiar a comunidade em geral e não interesses particulares. Digitalizar revistas acadêmicas é muito importante para dar visibilidade ao que tem sido produzido na universidade, mas é necessário preservar também a memória popular. Quais são as revistas publicadas em comunidades periféricas, publicadas por mulheres negras, povos indígenas? Onde posso consultá-las? O acesso aberto é um megafone muito útil quando é sinônimo de inclusão, diversidade, participação comunitária, pesquisa relacionada ao conhecimento científico e popular.
(CARLA) – Além de questões sociais, a Bibliotecologia também leva em conta o contexto político. No Brasil, estamos passando por um período de ameaças à democracia e aos direitos humanos. Como os bibliotecários podem contribuir para o enfrentamento dessas situações?
(JULIO) – Com informação e conhecimento. Na época da ditadura,muitos bibliotecários desapareceram na Argentina porque colocaram seus corpos em defesa do conhecimento. Em uma universidade argentina, os militares perguntaram: “onde estão as armas?”. O reitor respondeu: “nas bibliotecas”. De fato, as verdadeiras armas são informação e conhecimento, postos à disposição das comunidades mais vulneráveis, gerando espírito crítico. Nós, bibliotecários, temos que ser ativos politicamente, compartilhando nosso conhecimento. Torço pelo Brasil e por sua gente, para que lute e defenda a democracia, os direitos humanos e a profissão de bibliotecário, que é uma janela para o mundo e para a vida.

