
A atualidade da obra de Atwood é o que mais me admirou. Publicado em 1985 e ambientado em um contexto distópico, o romance se comunica fortemente com o presente. Por mais que certas coisas mereçam pertencer ao passado.
A história também é um pouco de História, pois a autora coleta referências a costumes, culturas e acontecimentos reais para cada detalhe do romance. E isso é evidente, quando reconhecemos na fala de um general teocrático o que já ouvimos tantas vezes em casa, no ônibus ou no trabalho.
Trata-se da narrativa de uma aia. Escravizada em nome da reprodução. Um receptáculo para a continuação da espécie. Serva de um deus que coloca o mundo nas mãos dos homens. Parece familiar?
As Aias são uma classe de mulheres, em meio a Marthas (serviçais), Esposas, Econoesposas, Tias e, ironicamente, as Não-mulheres. Os Estados Unidos agora é Gilead, um país governado por extremistas religiosos.
Mulheres não possuem direitos políticos. A elas é vedada a mais simples leitura. Ainda assim, é a voz da aia que nos guia pelo retrato desse tempo. São seus anseios, divagações e sofrimentos que enveredam o leitor por esta viagem. Ser mulher em Gilead é angustiante para o leitor. Para a leitora, é um tanto mais pessoal.
Na mente dessa mulher vivemos a impotência, a frustração, a indignação, a luta. A esperança. Ao fechar o livro, vivemos um pouco mais disso tudo.
(Lívia Araújo)

