E-books e obras impressas podem conviver pacificamente? O texto a seguir traz reflexões por meio da exposição de alguns apontamentos feitos em “A Questão dos livros”, obra do historiador cultural Robert Darnton.
A alegria de pegar um livro para folhear, o prazer de sentir o cheiro, a textura, explorar os diferentes formatos… quantas sensações um livro impresso desperta! Inventado por volta do nascimento de Cristo, o códice, ou encadernação em livro, é um suporte muito utilizado e, ao que tudo indica, ainda o será por muito tempo.
Mesmo com a invenção das novas tecnologias, a indústria do livro está lançando, em todo o mundo, cerca de um milhão de novos títulos por ano. É o que aponta o historiador cultural e bibliotecário Robert Darnton em “A Questão dos livros”. Nesta mesma obra, Darnton também fala sobre os livros eletrônicos (e-books) não como substitutos, mas como suplementos aos livros impressos.
Os e-books surgiram em 1971, com a publicação eletrônica da Declaração de Independência dos Estados Unidos. Esse foi o início do Projeto Gutenberg, fundado pelo estadunidense Michael Hart com o objetivo de digitalizar livros e oferecê-los gratuitamente na internet.
A principal vantagem do livro eletrônico é a portabilidade. Além disso, não há necessidade de espaço para armazenamento físico. Maior acessibilidade e abrangência de conteúdo também se somam às vantagens do e-book, que permite a fácil conversão do texto para áudio e braile e o uso de links externos para acesso direto a outras fontes de pesquisa. A principal desvantagem da leitura digital é a perda das sensações despertadas pelo livro físico. O processo é mais cansativo e a exposição à tela por longas horas pode trazer prejuízos à visão. A segurança do armazenamento das informações é outro impasse, já que há o risco de grandes coleções literárias se perderem com as mudanças de tecnologias e os bugs.
Ao longo dos anos foram lançados leitores de livros eletrônicos, obras em formato exclusivamente digital e surgiram empreendimentos para comercialização de e-books. As tecnologias continuam avançando e os projetos de digitalização tornam-se cada vez mais ambiciosos. Em 2004, por exemplo, foi criado o projeto Google Book Search cujo objetivo é digitalizar o acervo de várias bibliotecas, para disponibilizar as edições digitais no mercado. Segundo Darnton, a ideia de tornar livros domínio público, disponibilizandoos gratuitamente na internet, é louvável. No entanto, o Google pretende vender as assinaturas do banco de dados digitalizado, dividindo a arrecadação com os detentores de direitos autorais. Para Robert, isso levaria a uma espécie de monopólio de acesso à informação, o que vai de encontro ao objetivo das bibliotecas que é promover o bem público e o conhecimento. Como disponibilizar os livros eletrônicos sem perder o caráter público do saber? Essa questão ainda não tem resposta, mas há também outra: e-book e livro impresso podem conviver pacificamente, sem o primeiro sobrepor-se ao segundo?
Robert Darnton sugere que os e-books sejam um suplemento e não um substituto ao livro impresso. Para tanto, ele propõe que os livros eletrônicos sejam construídos em camadas: uma principal (com o conteúdo disponível nos livros impressos); outra composta por documentos e ensaios interpretativos; um nível teórico ou historiográfico; outro pedagógico com sugestões de debates em sala de aula e, por fim, uma camada com relatórios de revisão e espaços para comentários. Esse formato, segundo Darnton, possibilitaria um novo tipo de leitura, com exploração cada vez mais profunda de determinados temas nas diversas camadas do livro eletrônico; enquanto a leitura convencional, linear, continuaria a ser feita por meio do livro impresso.
E-Books na UFMG
O Sistema de Bibliotecas da UFMG possui um grupo de estudo e avaliação dos e-books. Segundo levantamento feito por esse grupo, atualmente a Universidade conta com 56 e-books, que estão sendo catalogados e disponibilizados no “Catálogo On-line”, no site da Biblioteca Universitária (www.bu.ufmg.br). “Há ainda um projeto de implantação de uma senha, para que os usuários possam também acessar o material em casa”, afirmou Vilma de Carvalho, bibliotecária coordenadora do grupo de avaliação dos e-books.

