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Linguagem e Memória na travessia do Grande Sertão: Veredas

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O romance chama a atenção pelo tratamento todo especial que confere à linguagem. Partindo de uma dicção regionalista, Guimarães Rosa criou palavras, recuperou algumas já em desuso, usou estrangeirismos, desrespeitou a gramática e imprimiu à sua ficção características poéticas.

O livro introduz a voz de Riobaldo, que se dirige a um homem instruído da cidade, hospedado em sua casa. A “conversa” vai de casos sertanejos a reflexões sobre o bem, o mal e o caráter transitório das coisas do mundo… Aos poucos, o assunto chega à história de Riobaldo, que se revela um homem perturbado por conflitos e dúvidas existenciais: na juventude, vivera experiências cujo sentido não consegue alcançar, e espera que o doutor o ajude nisso.

Essa história é contada conforme os caprichos da memória, indo e voltando no tempo. A não linearidade e o experimentalismo linguístico costumam criar as famigeradas dificuldades de leitura de que se ressentem leitores de primeira viagem. Mas essas dificuldades têm a ver com a complexidade da experiência que o livro tenta sugerir.

A experiência da “travessia” é complexa, como complexos também são os elementos envolvidos em recordá-la e narrá-la. As dificuldades estão no livro para nos lembrar que, nas palavras de Riobaldo, “a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total”. Ler “Grande sertão: veredas” é um caminho para isso.

(Claudia Campos – professora da Faculdade de Letras da UFMG)

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