Elas não vivem atrás do cocar de nenhum homem. O que elas vestem não é uma fantasia. E não, elas não estão apenas dentro de casa. Elas estão nas decisões políticas, nos rituais, na arte e na luta. Conquistando espaço estratégico, na busca ativa da garantia dos direitos nas relações de gênero, transmitindo conhecimento na educação, na literatura e na oralidade, existindo e resistindo.
“O Brasil não é apenas verde amarelo; é negro, é marrom cor de terra, é um arco íris, é multicolorido, é ainda vermelho – pois estas terras foram lavadas de sangue, indígena negro, a cada processo de luta territorial: este vermelho que ainda se jorra não foi estancado”. É o que diz Célia Xakriabá, coordenadora do Programa de Educação Escolar Indígena de Minas Gerais.
“Muitos ainda acham que ser indígena é andar nu, viver na mata, comer na folha e viver deitado. Não, estamos na luta pela resistência e ainda passamos por um processo de dizimação: silencioso, mas presente”, denuncia Márcia Kambeba, escritora, educadora indígena e membra da Academia de Letras de Formiga.
Duzentos e quarenta povos. Cento e oitenta e três línguas diferentes. “Somos 817 963 autodeclarados ao IBGE, mas somos mais: somos mais nos 74 pontos isolados nas florestas onde o IBGE não chega, e somos mais nas cidades onde a sociedade teima em não nos reconhecer, e onde muitos de nós deixaram de reconhecer nossa origem e nossa cultura”, diz Daiara Figueroa, da etnia Tukano, em texto de 2012.
Se esses povos são sistematicamente invisibilizados pela sociedade, das mulheres indígenas ouvimos ainda menos. Desinformação e falta de representação mascaram os problemas que enfrentam – em relação à moradia, saúde, educação e violência. Além disso, as reduzem a estereótipos hipersexualizados e machistas.
“Embora tenham muitas lideranças ativas e empoderadas, ainda somos um número muito pequeno de mulheres que consegue ir além do espaço da aldeia. E a gente precisa cada vez mais ocupar e fazer com que a voz da mulher seja escutada, não só dentro da nossa própria terra como fora também,” reflete Sonia Guajajara, coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas no Brasil (Apib), em entrevista para o Instituto Socioambiental (ISA).
Conheça mulheres que mostram algumas das inúmeras facetas de povos distintos, que se unem em uma história que vai muito além da invasão, opressão e confronto enfrentados por indígenas até hoje.
Por um novo arco na política

Raul Brandão
Avelin Buniacá, do povo Kambiwá, é nascida em Pernambuco, mas se mudou com a família para Belo Horizonte quando ainda era adolescente. A professora de sociologia atua em diversas frentes em favor da causa indígena, como o Comitê Mineiro e sua candidatura pela plataforma “Muitxs: a cidade que queremos”, em 2016.
Segundo Avelin, o maior problema para os indígenas estabelecidos em BH é a moradia: a maioria aluga casas em péssimas condições, são passados para trás por seus senhorios ou vivem em pequenos quartos com muitas pessoas. Quem está em situação de trânsito, entre a aldeia e a cidade para vender artesanato, também sofre com este problema: ficam expostos na Praça Sete, na Feira Hippie, muitas vezes com crianças – principalmente mulheres artesãs. Sua principal proposta, então, é a criação de um Centro de Referência Indígena.
“Não só pra expor artesanato, mas um lugar pra fazer oficinas, palestras, em que a gente possa estudar as várias línguas que vem pra cá, ter aulas de Guarani, Patiohã, Ticuna, Puri e Tupi… A gente precisa resgatar essas coisas, para as quais Belo Horizonte não tem espaço hoje”.
“Eu queria deixar esse recado pra sociedade: nós não estamos brincando quando a gente fala que quer estar na política, porque esse lugar também é nosso. Já chega de fazer leis pra nós cumprirmos. Nós também temos que ter poder de voz, nós pensamos e também temos que decidir por nós. Nós não somos crianças”.
Educação que entoa mudança

Arquivo pessoal Célia Xakriabá
Célia pertence ao povo Xakriabá, comunidade localizada no norte do estado de Minas Gerais, neta de figuras importantes para a tradição oral e a linguagem cantada da aldeia. “Esta entoação eu trago na minha oralidade, e no construir do meu pensar. Sempre estive inserida no contexto educacional tradicional, a partir de minha família e lideranças”.
Aluna da primeira turma de professores de seu povo formados no Magistério Indígena – curso ofertado pela Secretaria de Estado de Educação mineira – viu e viveu a construção de uma escola verdadeiramente Xakriabá. Seguindo na educação, se formou pela UFMG e se tornou Professora de Cultura: “Usávamos o giz para ressignificar a escola, a partir da nossa concepção de educação. Após muita luta, contamos a nossa própria versão da história”.
Em 2015, Célia se tornou a primeira representante indígena na Secretaria de Estado mineira, coordenando o Programa de Educação Escolar Indígena. Um desafio e uma vitória, com projetos como a criação da Comissão Estadual de Educação Escolar Indígena de Minas Gerais, e o início das discussões sobre a criação da Categoria Escola Indígena.
“Nós jovens somos vistos pelos nossos anciãos como o futuro ou as lideranças do amanhã. Já representamos esse papel de articuladores hoje: somos interlocutores e assumimos a responsabilidade na intervenção e na defesa de nossas comunidades”.
Literatura semeando saberes

Carlos Araújo
Márcia vem da aldeia Belém do Solimões, no Amazonas, e é a primeira mulher do povo Kambeba a ingressar em uma Academia de Letras. Foi em Minas Gerais que recebeu esse reconhecimento, ocupando uma cadeira em Formiga, no oeste do estado.
Formada pela Universidade do Estado do Amazonas e mestre pela federal do estado, hoje a poetisa trabalha com educação indígena em aldeias do Pará, onde usa a literatura nas aulas de licenciatura cultural indígena das universidades estadual e federal paraenses.
“As mulheres indígenas nas aldeias também estão escrevendo suas literaturas em papel, deixando em forma de letras suas memórias, que antes eram transmitidas pela oralidade. O ensinamento delas não está só na literatura. A arte que elas produzem usando sementes, fibras da mata e tintas da natureza… Tecendo fios elas vão ensinando, deixando seus ensinamentos em cada trançado de tala”.
“Escrevo porque sinto que a literatura hoje é como uma flecha que acerta sem sangrar o coração dos que se dedicam a ler nossas produções. Escrevo porque penso no amanhã, penso que as novas gerações encontrarão um solo mais adubado do que temos hoje. Escrevo para que as pessoas não-indígenas lendo compreendam o que é ser indígena, de modo particular nesse novo tempo”.
(Lívia Araújo)

