BIBLIOTECAS UNIVERSITÁRIAS E O ACESSO PÚBLICO À INFORMAÇÃO: ARTICULANDO LEIS, TECNOLOGIAS, PRÁTICAS E GESTÃO


Discurso de abertura do XVIII SNBU – 16/11/2014

Wellington Marçal de Carvalho

DSC_0372Excelentíssima Vice-Reitora da UFMG, Professora Sandra Regina Goulart Almeida; Excelentíssimo Senhor Ministro de Estado da Ciência, Tecnologia e Inovação, Professor Clélio Campolina Diniz; Ilma. Vice-Diretora da Biblioteca Universitária – SB/UFMG, Bibliotecária Anália das Graças Gandini Pontelo, Ilma. Presidente do Conselho Federal de Biblioteconomia, Bibliotecária Regina Céli de Souza; Ilmo. Presidente da Comissão Brasileira de Bibliotecas Universitárias, Bibliotecário Luiz Atilio Vicentini; Ilmo. Diretor da Escola de Ciência da Informação, Professor Carlos Alberto Ávila Araújo.

Ilmo. Chefe de Gabinete do Ministro de Estado da Ciência, Tecnologia e Inovação, Professor Roberto do Nascimento Rodrigues; Ilma. Sra. Cristina del Papa, Coordenadora Geral do SINDIFES; demais autoridades, familiares, convidados e colegas de trabalho, diretores e chefes de bibliotecas, bibliotecários, assistentes e auxiliares em biblioteca e congressistas, boa noite!

Eu sou mineiro, de Sabará. Hoje me farei acompanhar do meu amigo Guima, de Cordisburgo – Minas Gerais. Para nós, “o grande movimento é a volta”. Em 21 de novembro de 2013, Anália e eu assumíamos, oficialmente, e muitos de vocês estavam presentes, (inclusive Jaime, Sandra, Campolina, Prof. Roberto) a desafiadora tarefa de administrar, por dois anos, a Diretoria da Biblioteca Universitária – Sistema de Bibliotecas da UFMG, eleitos que fomos pelos colegas lotados nas bibliotecas do Sistema. Consultando o meu Discurso de posse, daquela ocasião, compartilhei alguns grandes desafios que já assomavam às portas do Sistema. Alguém arriscaria um palpite quanto ao primeiro desafio? Anália e eu prometemos: “Envidar todos os esforços para, com a participação de todos, realizar um grande e memorável SNBU, que será sediado na BU/SB, em 2014.” Hoje, um pouco menos inocente, acrescentaria: “… e fazê-lo, com primor, em 11 meses e 24 dias.” E foi preciso, por não saber às vezes como fazer, agir mineiramente, “sempre pegando com Deus”, sobretudo porque atravessamos muitas situações “inveremes”, como diria minha avó Maria.

Este nosso momento é a coroação do labor do Sistema de Bibliotecas da UFMG. Convém, então, apresentar brevemente essa instituição bibliotecária. O Sistema de Bibliotecas da UFMG é formado por 25 bibliotecas setoriais, conta com uma equipe de aproximadamente 500 trabalhadores e possui acervo com mais de 1 milhão de exemplares.

O nosso Sistema tem a idade da UFMG. Estamos no limiar dos 90 anos.

Talvez fosse interessante refletirmos sobre as formas como a vida do Sistema de Bibliotecas, necessariamente, veicula mensagens de um período da história do mundo. De que forma?

Encaminhar alguma resposta a essa inquietação pode se dar ao revisitar fragmento do discurso proferido pelo professor e crítico literário brasileiro Antonio Candido, na cerimônia de inauguração das novas instalações da Biblioteca Central da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), posteriormente publicado na coletânea Recortes, lançada em 1993. Sua breve fala é dividida em duas partes. Na primeira o professor enxerga na ocasião inaugural o terreno propício para alertar sobre a necessidade, no Brasil de então, de investimentos em âmbito universitário, em bibliotecas, notadamente em bons acervos e qualificado corpo de pessoal, mais exatamente, de profissionais bibliotecários.

Na segunda e última parte do discurso, Candido faz a apresentação da vultosa, em número de itens e em riqueza conteudística, biblioteca pertencente à seu pai, Aristides Candido de Mello e Souza, recebida em doação pela UNICAMP naquela data. A cerimônia de doação da biblioteca serviu de mote para que Candido, o filho, fizesse a seguinte sugestão aos presentes: Que se estude a formação de uma cultura pessoal por meio da biblioteca, vista como estratificação de sucessivas camadas sedimentadas ao longo do tempo de uma vida que pode servir de índice para o conhecimento da época” (CANDIDO, 1993, p. 218).

Ele segue ilustrando, com os livros que compunham a biblioteca paterna, a sugestão feita ao reconstituir a evolução mental de Aristides no terreno das ciências humanas, concomitante à incorporação de novos títulos ao acervo em crescimento.

Defendia Candido (1993, p. 217), que “o estudo de tais coleções vem a ser um instrumento útil para investigar a formação das mentalidades num dado momento histórico” e, por conseguinte, conclui que “a formação de uma biblioteca equivale geralmente à superposição progressiva de camadas de interesse, que refletem a época através da pessoa” (CANDIDO, 1993, p. 217).

Logo, ao observar a história de nossas bibliotecas, com mais vagar, nos defrontaremos com indícios de conhecimento de uma época, em um determinado, e não sejamos inocentes, instante da “formação de mentalidades”, fruto de gesto arbitrado, decorrente de um jogo de poder, de disputa, de administração de usufruto de espacialidades.

A constituição de nossos acervos, de nossas bibliotecas é, também, um “conjunto de virtualidades de valor essencialmente desigual”, como alertara o geógrafo brasileiro Milton Santos.

Posicionamentos ideológicos também delinearam, obviamente, a constelação temática discutida em cada edição do SNBU e cristalizam, por assim dizer, a oficialização de formação de mentalidades da área.

E, por oportuno, mineiros que somos, tenho a grata satisfação de anunciar que digitalizamos os Anais das edições anteriores e as disponibilizamos no site do Seminário. Como diziam os antigos (em sou bem antigo):  “Casa de ferreiro, espeto…”!!! Lembram-se de 1978, na Universidade Federal Fluminense, quando discutíamos “A biblioteca  como suporte do ensino e da pesquisa no desenvolvimento nacional”? E o “Plano nacional de bibliotecas universitárias”, que abordamos em 1987, na 5ª edição, na UFRGS? Já em 2004, na UFRN, no 13º Seminário, refletimos acerca do redimensionamento das bibliotecas universitárias; a gestão estratégica e a inclusão social.

Hoje, a nos reunir, temos todos a preocupação de discutir a relação entre as “Bibliotecas universitárias e o acesso público à informação” e a respectiva articulação de leis, tecnologias, práticas e gestão. Desenhamos nossas linhas discursivas em torno a grandes eixos: organização e serviços de informação; leis de acesso público à informação; gestão de Bus; tecnologia e comunicação científica.

Permitam-me, já encaminhando estas minhas palavras para o final, conclamar a todos, uma vez que neste ano de 2014, com a 18ª edição, o SNBU alcança a sua maioridade, a relembrar o papel de cada um de nós, a partir do nosso campo de atuação em bibliotecas e áreas afins, no sentido de deslocar a realidade do nosso país em direção à prevalência de uma urdidura social mais justa, mais igualitária, em que, em primeiro lugar, esteja a defesa da dignidade da pessoa humana.

O que tomo a ousadia de dizer, mais veementemente, é que nos lembremos da letra do nosso juramento, do cunho social e humanista do nosso fazer, para que, ao fim, instalações artísticas como a de Lúcia Gomes, intitulada “Santuário ou sanitário” (que articula-se no lixão de Aurá, em Belém, na qual não se divisa o que é lixo e o que é gente) configure-se, em um futuro breve, apenas como um lugar de memória, a nos alertar para as ciladas que permeiam a “formação das mentalidades”, em nossas bibliotecas. Em nosso horizonte de atuação temos a obrigação de contribuir para um processo de natureza outra, que mitigue a regência da batuta condutora da existência do ser humano feito coisa, dejeto, lixo.

Agradeço a cada um pela vida dedicada em prol deste momento presente, principalmente a Administração Central da UFMG e, também, aos nossos patrocinadores e expositores.

Devemos, como aconselha Guimarães Rosa, congressistas e convidados, “sempre fugirmos das formas estáticas, cediças, inertes, estereotipadas, lugares comuns, etc. O nosso fazer deve se dar à base de uma dinâmica ousada, que se não for atendida, o resultado será pobre e ineficaz. Temos de apreender novas maneiras de sentir e pensar. E, quando preciso, sermos indisciplinados. Aproximando-nos da poesia, da obscuridade do mistério, que é o mundo. É e nos detalhes, no trato com dignidade com o outro, que estes efeitos se obtêm.

Em meu nome e em nome da Anália, muito obrigado e um brilhante 18º SNBU para todos nós! E que toda positividade nos guie! Amém!